– Fique longe de mim!
A mão espalmada, o corpo curvado e os dentes arreganhados
eram as armas do pai contra seu filho.
– Você não é bem-vindo! Vá embora daqui!
O rosto do filho, imagem exata da culpa, se limitava a
chorar e olhar para a palma daquela mão. A mão áspera e forte que tantas vezes
segurara o filho quando bebê, que protegera o filho quando aprendia a andar de
bicicleta; a mesma mão que o forçava a se afastar.
O pai recordava aquele momento fielmente em sua mente,
jamais esquecendo do que fez naquele dia. Mesmo sozinho na mesa da cozinha com
uma garrafa quase vazia e a embriaguês se instalando, a lembrança não ia
embora.
E além da lembrança, a culpa também resolvia visitar a
consciência do pai. A culpa o forçava a imaginar a vida que poderia ter com o
filho ao lado, ao invés daquela vida vazia e inútil que se resumia naquela
imagem. A solidão e a garrafa.
Quanto tempo havia passado? Tempo demais. Ele mal era um
adulto quando foi embora. E agora já deveria ter uma família própria, com os
próprios filhos. Deveria estar feliz. Uma lágrima solitária desceu enquanto o
pai se orgulhava do filho de sua própria fantasia.
– Ele não precisa mais de mim.
Falou morbidamente para si. E acreditou em sua mentira
piamente. Era só um velho, mesmo, sozinho e morrendo aos poucos. Ninguém
sentiria falta. Tomou em um gole o resto da garrafa e se debruçou da mesa.
Fechando os olhos, pronto para morrer.
E então. Um bater na porta. O coração do pai se acelerou,
por alguma razão. Cambaleante. Trôpego. Conseguiu encontrar a porta da frente.
Girou a maçaneta e puxou a grande madeira.
Estava chovendo. E a pessoa estava encharcada.
A pessoa era um homem. Com quase quarenta anos. Ele sorria.
Um sorriso largo. As gotas da chuva pingavam de seu nariz.
O pai olhou bem para o rosto da pessoa. Perplexo. Seu
coração batia forte. Feliz.
– Filho!
Não era.
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