quinta-feira, 1 de março de 2012

Destroços

um,

Meus passos na terra vermelha somem
À medida que vem o vento
Sobre a existência do meu nome.

dois,

Sinto no meu rosto o frio intenso das noites de agosto
Permaneço aqui, a espera do ônibus
Vejo pessoas que descem, e pessoas que sobem
E permaneço aqui, a espera do ônibus
Sinto no meu rosto o frio intenso das noites de agosto.

três,

Estou de passagem pela noite
A janela do passado aberta
Meu corpo amarelo na cova escura
Junto meus destroços...

Uma longa madrugada de inverno.

Instruções para Descobrir Novas Coisas e Fazer Amigos


Você deve ter perto de sua casa um jardim.
Um parque ou uma praça pública.
Ao menos um vizinho com um gramado.
Passe no local que for mais próximo.
Olhe atentamente os arbustos.
Escute atentamente os arbustos.
Sinta atentamente os arbustos.
Dê um sorriso de novidade e surpresa.
Depois saia correndo em busca de alguém
para contar o que você viu lá.
 

Assombração de Barraco


Eu já ando injuriado, ô xará.
Meu salário defasado.
meu povo todo esfomeado
e ainda é intimado a votar.
Vejo que essa previdência
não tem competência prá ser social.
O trabalhador adoece e morre na fila do
hospital.
Enquanto uma pá de
aspone
que dorme e come, mamando na teta.
E os
PCs na mamata, sempre fazendo mutreta.
Roubando o dinheiro do povo
e mandando prá
Suiça na maior careta.
Isso é que é covardia
que me arrepia e me faz chorar.
É fraude por todos os lados
e ninguém consegue grampear os culpados.
É que na realidade a impunidade tá feia
demais.
E uma pá de cheque-fantasma, assustando o planalto central.
Assombração do barraco é o ladrão de
gravata e não é o marginal.

Poesia conjunta de José Carlos e Elso Boa Gente 

Porque metade de mim é platéia


Teu sorriso em arco-íris com gosto de picolé de tangerina bateu hoje cedo na minha porta. Não houve troca de olhares, nem a constante falta de respeito. Quem me telefonou ontem foi a senhora sua falta de ar, disse-me que você anda meio confusa, que quase não fala mais. Ainda consigo ouvir o som do piano e lembrar dos nossos corpos contagiados. As amoreiras andam tão bonitas por aqui, você deveria estar aqui ouvindo o que elas dizem.
-volta logo.

intravenoso


quente demais na rua, ou em qualquer espaço exterior a mim, que gargalha. mas só sinto calafrios. querer expulsar seja o que for não terá nenhuma eficácia, está tudo emancipado e sujeito de si mesmo, dono de si, coberto de si. se procurasse saber sobre si se perderia de si. antes gotejar, para fora. ser desmontado, depois de quebrado, depois de violentado, depois fechar os olhos e cair no escuro e sob o efeito da queda ver o movimento: ilusório e infinitamente; depois de sentir e desejar ter escondido, que se sofre sempre antes mesmo de olhar, quando está tudo difuso e sem forma, como se viesse tudo voando em velocidade insuperável; e depois, quando tudo se dá imagem liberta de consequências.
sejam quais forem os rastros de confusão fazem jus ao tormento inicial: de dentro para fora, mas o fora de dentro: perceber que estiveram mortas todas as raízes, porque flutuavam e não havia do que se alimentarem.
poderia ser assim e somente assim, frio...

VIBORAL


As minhas alucinações,
As minhas ganas,
As minhas taras,
Os meus incestos
Os meus devaneios,
A minha fraqueza feminina

As minhas putas emocionais,
O meu lado escrotal,
Minha víbora racional.
Desperto raiva,
sexo,alegria,fúria,solidão.

Deuses e demônios festejando,
Na minha mente acendem as velas,
Para uma vida que está apenas começando.
Renata Calippo
nçol com luvas laranjas, laranjas.